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gênero eheterossexualidade compulsória?40. A partir danoção de performatividade, ou seja, a criação do
gênero a partir de performances sociais contínuas,?as próprias noções de sexo essencial e demasculinidade ou feminilidade verdadeiras oupermanentes também são constituídas, como parteda estratégia que oculta o caráter performativo do
gênero e as possibilidades performativas deproliferação das configurações de
gênero fora dasestruturas restritivas da dominação masculinidadee da heterossexualidade compulsória.?41 EvaSedgwick irá criticar, contudo, que a ênfase naparódia não permite explicar a ?economia doexcesso estilístico, a produção da beleza, a criaçãodo prazer e a invenção de estratégias desobrevivência que têm lugar nas práticas dragqueen, drag king ou trans
gênero?.42Beatriz Preciado, por outro lado, entendeque o
gênero não é apenas performativo, massobretudo ?prostético, ou seja, se não se dá senãona materialidade dos corpos?: 43?É puramente construído e, ao mesmo tempo,inteiramente orgânico. Escapa às falsas dicotomiasmetafísicas entre o corpo e a alma, a forma e amatéria. O
gênero se parece ao dildo. Porque os doispassam da imitação. Sua plasticidade carnal7071desestabiliza a distinção entre o imitado e o imitador,entre a verdade e a representação da verdade, entrea referência e o referente, entre a natureza e oartifício, entre os órgãos sexuais e a prática do sexo.O
gênero poderia resultar uma tecnologia sofisticadaque fabrica corpos sexuais.? Em seu ?manifesto contra-sexual?, elasubverte o pensamento binário genital (pênis/vagina), para dar ênfase ao potencial subversivodo ânus, um lugar que vai além da diferença sexual( todo mundo tem), ?um lugar que está fora docircuito convencional de produção do prazer, eum espaço de possibilidade de reelaborar ocorpo.?44 Mais do que isto: os órgãos sexuais comotais não existem. Eles, que ?reconhecemos comonaturalmente sexuais, são já um produto de umatecnologia que prescreve o contexto no qual osórgãos adquirem seu significado (relações sexuais)e se utilizam com propriedade, de acordo com asua ?natureza? (relações heterossexuais) (.) Aarquitetura é política. É ela que organiza aspráticas e as qualifica: públicas ou privadas,institucionais ou domésticas, sociais ou íntimas.?45Ao invés de falarmos de homens e
mulheres,deveríamos utilizar sujeitos falantes, pós-corposou wittigs ( em homenagem a Monique Wittig) edaí resultam suas propostas: eliminar o
gênero doDNI ( carteira de identidade), ?nomes própriossem marcas de
gênero, universalizar as práticasabjetas, ressexualizar o ânus, parodiar os efeitosassociados ao orgasmo, acesso livre aoshormônios sexuais, abolição da família nuclear?46Não existe, pois, a ?diferença sexual, massim ?uma multidão de diferenças, umatransversalidade das relações de poder, umadiversidade de potências de vida?, que não são?representáveis?, uma vez que são ?monstruosas?e ?põem em questão, por isso mesmo, não só osregimes de representação política, mas tambémos sistemas de produção de saber científico dos?normais?.? Neste sentido, o que a autoradenomina de políticas de ?multitudes queer? secontrapõem às ?políticas que permitem oreconhecimento? ao custo da ?integração? das?diferenças? no seio da República e, assim, seopõem ?tanto às instituições políticas tradicionais,que se apresentam como soberanas euniversalmente representativas, como àsepistemologias sexopolíticas heterocentradas que,ainda, dominam a produção da ciência.? 47Judith Halberstam, por seu turno, vaidestacar que o fato de assumir que a masculinidadeé própria do homem permitiu o ?ocultamento deoutras versões alternativas de masculinidade, e7273reforçou a condenação da masculinidadefeminina? e, desta forma, a masculinidade é maistransgressora quando não está vinculada ao corpomasculino, especialmente se branco eheterossexual.48 Salienta, por exemplo, a amplaaceitação que tem as formas heterossexuais demasculinidade feminina, como Linda Hamilton no?Exterminador do Futuro? ou Sigourney Weaverna série ?Alien?. Para ela, existe uma noção deidentidade sexual que ?não se define como algoorgânico que se define pela carne, mas como umato complexo de auto-criação no qual o corpovestido- e não o corpo nu- o que representa odesejo mesmo?.49 As práticas e representaçõessexuais formam parte, portanto, de um processocriativo cultural e de um contexto político. Dandocomo exemplos os ?drag kings?, aponta para a?possibilidade de aplicar a mesma transgressãode masculinidade para o terreno da raça e da classesocial?50- ou seja, práticas paródicas em que sepassa de uma raça a outra, de uma classe social aoutra.Del Grace Volcano, fotógrafo trans
gênero,afirma que ?foi chamado por muitas coisas,conhecido por muitos nomes?, e que a ?linguagemé minha para ser manipulada?. Intitula-se,portanto, um ?terrorista do
gênero, uma mutaçãointencionada, um/uma intersexo através dodesenho?:51?Um terrorista do
gênero é qualquer um que,consciente e intencionalmente, subverte,desestabiliza e desafio o sistema de gê...